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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O Ódio derrete a Vida



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O filósofo francês André Glucksmann defende que a vida só prevalece quando há controle sobre o ódio. Inclusive, em seu livro O Discurso do Ódio, esta temática é bem trabalhada e, ao ler suas reflexões, poderemos entender um pouco mais sobre a relação inversamente proporcional entre o ódio e a vida. Glucksmann está certo, pois só é possível viver se o ódio não direcionar nossas atitudes. Caso contrário, não viveremos, mas sim sobrevivemos numa tentativa de encontrar vida em meio a tanto desconforto causado pelo ato de odiar.
O olhar analítico sobre o ódio é longínquo de modo que Empédocles, filósofo Pré-Socrático, já tentava olhar para o mundo e para natureza tentando decifrá-lo. De maneira dicotomizada, ele buscava explicar a união da matéria e acreditava que o ódio, numa espécie de força repulsiva, afastava tudo. De fato, o ódio tende a afastar não só a matéria como também todos os afetos. O ódio elimina e impede o crescimento, pois sempre produzirá a exclusão. Não é possível viver uma vida contaminada pelo ódio, haja vista, que as bases saudáveis de quaisquer vidas são o permitir, o compartilhar e o doar. Aquele que está imerso no ódio e que odeia não se permite, não compartilha e não doa absolutamente nada. A ambivalência entre o amor e o ódio, trabalhados na cosmologia de Empédocles, se propaga até os dias de hoje. Por exemplo, Renato Russo já descrevia que o amor cessa na presença do ódio. Enfim, “é só o amor que conhece o que é verdade”. No ódio, a verdade não prevalece pela cegueira da ira direcionada para si, naqueles que não se suportam, e para os outros, naqueles que vomitam seu ódio no alheio.
Por isto, aqueles que propagam o ódio nas suas falas e atitudes precisam ser combatidos. Este ódio encontra ressonância em outros, que também padecem desse sentimento. Ao final, teremos legiões de pessoas que agem com a premissa do odiar e que são capazes de sobreviver com base no ódio. Ele se espalha e vai contaminando boa parte da sociedade de modo que odiar e espumar em ódio passa a ser o convencional. Erroneamente, passa-se a acreditar que os nossos líderes e ícones deverão mostrar ódio na fala e nas posturas como se isto significasse virilidade e capacidade. Para aqueles que acreditam nisso, atuar e discordar de forma urbana e adequada é sinônimo de fraqueza.
O ódio é covarde porque não permite defesas. Então, aqueles ou aquilo que é odiado muitas vezes são vítimas de uma percepção própria do agente propagador do ódio e contra isto não há remédios. É como se acontecesse uma paixão às avessas capaz de cegar, permitindo que o ódio não ceda a nenhum argumento. Nesta análise, quais seriam os malefícios ao humanismo quando os que alimentam o ódio em si passam a propagá-lo? Os prejuízos na vida social são diversos, sobretudo se um propagador do ódio tem tribuna, palco e admiradores, pois, numa constituição delirante e compartilhada, este ódio não será debelado. Pelo contrário, ele será fortalecido e cristalizado e no final não sobrará nada.
O mundo sempre permitiu que o ódio prosperasse e o mundo atual não é exceção. Sua atuação acontece no cotidiano desde atos terroristas até atitudes preconceituosas, excludentes e incitadoras do perverso. Portanto, o ódio não está somente nos Talibãs, mas também em muitos dos que passam por nós todos os dias. E com isto, a vida vai se esvaindo. O belo vai evaporando e as relações morrendo. O amor sucumbe e perde espaço. Assim, nós estamos e assim nós vivemos. Como bem falado por Gandhi, “o mundo está farto de ódio”.
Régis Eric Maia Barros
Dr. Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra
Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP – USP